terça-feira, 7 de outubro de 2008

À Matilde Urrutia

Senhora minha muito amada, grande padecimento tive ao escrever-te estes mal-chamados sonetos e bastante me doeram e custaram mas a alegria de oferecê-los é maior que uma campina. Ao propô-lo bem sabia que ao costado de um, por afeição eletiva e elegância, os poetas de todo tempo alinharam rimas que soaram como prataria cristal ou canhonaço. Eu, com muita humildade, fiz estes sonetos de madeira, dei-lhe o som desta opaca e pura substância e assim devem alcançar teus ouvidos. Tu e eu caminhando por bosques e areias, por lagos perdidos, por cinzentas latitudes recolhemos fragmentos de pau puro, de lenhos submetidos ao vaivém da água e da intempérie. De tais suavíssimos vestígios construí com machado, faca, canivete estes madeirames de amor e edifiquei pequenas casas de quartorze tábuas para que nelas vivam teus olhos que adoro e canto. Assim estabelecidas minhas razões de amor te entrego esta centúria: sonetos de madeira que só se levantaram porque lhes deste a vida.

Outubro de 1959
Pablo Neruda


O poeta escreve para sua mulher, Matilde, a quem dedica a obra Cem Sonetos de Amor.

quinta-feira, 25 de setembro de 2008

Meu

Só em ver
O olho prevê
O sentir
Aponta e logo ponta
o coração.
Só em ver
- Sabe?



gabriel

quarta-feira, 24 de setembro de 2008

Contato Imediato


Peço por favor
Se alguém de longe me escutar
Que venha aqui pra me buscar
Me leve para passear

No seu disco voador
Como um enorme carrossel
Atravessando o azul do céu
Até pousar no meu quintal

(...)

Vem me levar
Para um lugar
Longe daqui
Livre para navegar
No espaço sideral
Porque sei que sou

Semelhante de você
Diferente de você
Passageiro de você
À espera de você

No seu balão de são joão
Que caia bem na minha mão
Ou numa pipa de papel
Me leve para além do céu
Me leve para além do céu
Me leve para além do céu (...)

Livre para navegar.


Arnaldo Antunes

terça-feira, 16 de setembro de 2008

Cais de porto preto e branco



Estação cinza
Breve brisa gélida-fel
A desmachar teu palavreado
com estas (até então desconhecidas) pontas de dedos

Carta branca, conteúdo amarelado
Segue entregue a água salgada, por boiar
Mão na cartola, costas pra o mar
A tremular passadas


gabriel

sexta-feira, 5 de setembro de 2008

Cê/Garantia

Me fala das tuas cínicas tão certas certezas, que eu, seguro, sigo cercado de todo doce incerto que sinto.

gabriel

terça-feira, 2 de setembro de 2008

Breve

Caridosa alegria,
acolheste-me em leito, tal como veludo
quando, franzida, surpreendeste.
Saudosa alegria?
Bailaste na disritmia
cintilando cintilante.
Quando, semifusa-fugaz,
sugaste
saudaste
saiu.


gabriel

quinta-feira, 31 de julho de 2008

Quero saber

Quero saber se você vem comigo
a não andar e não falar,
quero saber se ao fim alcançaremos
a incomunicação; por fim
ir com alguém a ver o ar puro,
a luz listrada do mar de cada dia
ou um objeto terrestre
e não ter nada que trocar
por fim, não introduzir mercadorias
como o faziam os colonizadores
trocando baralhinhos por silêncio.
Pago eu aqui por teu silêncio.
De acordo, eu te dou o meu
com uma condição: não nos compreender


(Pablo Neruda)