quarta-feira, 10 de dezembro de 2008

Põe-se, sol!


foto: João Paes



Põe-se, sol!
Pois, o que o aflige?
A ponto de pôr em chamas
céu que o suspende.

Exploda!
Atraindo olhares em total direito apelativo
pois, tantos quão nem pouco são
brandos e sãos de si próprios
na explosão de suas próprias luzes.

Tantos quais, guardam entre vias e vãos, memórias vivas
que só vêm/vieram a luzir de dentro por sua luz de fora.

Põe-se, sol!
Vindo a queimar fotografias, céu, corações
Traz-nos Vida-verão
e eles o verão em vida;

Ao escrever histórias em lembranças chama-cor,
regadas ao doce e corado sabor
das horas em que tocas o horizonte.
Queime por entediar-se em ser todo usado:
em pranto, sendo casa
e pelo passeio das mãos dadas.

Põe-se, sol
Abrasa!



gabriel

quinta-feira, 27 de novembro de 2008

three melon tickets to the sound of the sweetest countdown.

domingo, 23 de novembro de 2008

terça-feira, 11 de novembro de 2008

Quando eu estiver com sessenta e quatro


Quando eu ficar mais velho, perdendo meus cabelos
Muitos anos adiante
Você ainda irá me mandar presentes no dia dos namorados
Saudações no aniversário, garrafa de vinho?
Se eu estiver fora até quinze pras três
Irá trancar a porta?
Você ainda irá precisar de mim, ainda irá me alimentar
Quando eu estiver com sessenta e quatro?

Você estará mais velha também
E se você disser a palavra
Eu poderia ficar com você

Eu posso ser útil, consertando um fusível
Quando suas luzes apagarem
Você poderia me tricotar um suéter perto da lareira
Nas manhãs de domingo iremos dar uma volta
Fazendo o jardim, cavando a erva daninha
Quem poderia pedir por mais?
Você ainda irá precisar de mim, ainda irá me alimentar
Quando eu estiver com sessenta e quatro?

(...)

Mande-me um cartão postal, me manda um telegrama
Informando o ponto de vista
Indique precisamente o que quer dizer
Estás sinceramente, se desperdiçando
Me dê uma resposta, preenche um formulário
Minha para todo o sempre
Você ainda irá precisar de mim, ainda irá me alimentar
Quando eu estiver com sessenta e quatro?


The beatles

terça-feira, 4 de novembro de 2008

Para rosada

Ele a projetou em sua imaginação e, como de costume ou sem esforço algum, a manteve ali, docemente concreta. Então, olhou-se no espelho: via-se singelo. Tornou-se a olhar, meio que de banda: singelo, sereno... nada mais. Não entendia tal automática e encharcada fisionomia. Era a que, de fato, expunha sempre ao vê-la. Talvez pintaria no rosto o leque de cores do dia, as que sempre via de janela para o mundo e absorvia numa espelhada aquarela interior própria. Talvez, só assim conseguiria decorar o rosto com a arte de releitura mais fiel, que emergia vorazmente de dentro e que vivia ansiosa por exibição.


Já estavam sentados na areia da praia, à convite dele, para ver a primeira lua cheia do novo ano. Ela, regida pelos quartos da lua que era, parada ao seu lado, com seus olhos perfeitamente redondos e vivos, sempre à captar por inteiro os momentos. E dela, as cores de tudo que ele sempre via nela, projetavam-se levemente e de forma pura, forma essa que ele guardara como essência eterna. Era invadido por uma dor prazerosa-pulsante, ritmada pelo coração. Como expressar naquele rosto o que realmente via quando a via? Teria de explicar que nela residiam as auroras de ares refrescantes, o azul, o baunilha espelhado do pôr-do-sol num dia nublado, o violeta alaranjado à luz, as rotas brilhantes de estrelas e de estradas em nuvens. Não iria explicá-la, com palavras certamente seria infiel a ele mesmo. Só a olharia. Olharia como olhava a lua, três certas estrelas e o mar.

Olhou-a com a expressão que era só dela. Enfim, expressou-se:

- Faz-me sereno.
- O céu ou eu?
- Céu teu.

Era-lhe rosa, ela.



gabriel

domingo, 12 de outubro de 2008

Contracanto

Há de se pensar
no recuo do mar, no volver da escrita
Vir a desestimar pêndulo pendido
Nova rota do ar

Haveria de mudar
direção do olhar, foco em outras luzes
De dentro pra um outro lar
Fácil daqui, bem dizer:
i-lu-mi-nar

Fácil é saber
Que quando acaso surpreende tal descaso,
fica claro de ver
Luzirá daí, flamejará daqui
Qualquer verá
(mesmo sem toda luz do luar)
Pêndulo pender
Por se encantar.




gabriel

terça-feira, 7 de outubro de 2008

À Matilde Urrutia

Senhora minha muito amada, grande padecimento tive ao escrever-te estes mal-chamados sonetos e bastante me doeram e custaram mas a alegria de oferecê-los é maior que uma campina. Ao propô-lo bem sabia que ao costado de um, por afeição eletiva e elegância, os poetas de todo tempo alinharam rimas que soaram como prataria cristal ou canhonaço. Eu, com muita humildade, fiz estes sonetos de madeira, dei-lhe o som desta opaca e pura substância e assim devem alcançar teus ouvidos. Tu e eu caminhando por bosques e areias, por lagos perdidos, por cinzentas latitudes recolhemos fragmentos de pau puro, de lenhos submetidos ao vaivém da água e da intempérie. De tais suavíssimos vestígios construí com machado, faca, canivete estes madeirames de amor e edifiquei pequenas casas de quartorze tábuas para que nelas vivam teus olhos que adoro e canto. Assim estabelecidas minhas razões de amor te entrego esta centúria: sonetos de madeira que só se levantaram porque lhes deste a vida.

Outubro de 1959
Pablo Neruda


O poeta escreve para sua mulher, Matilde, a quem dedica a obra Cem Sonetos de Amor.